Carmen Flores: "O PP é um partido oportunista. Não é de direita. É muro"

Fortalecido por seu desempenho não apenas na eleição nacional, mas também na estadual, o PSL gaúcho define nesta quarta-feira como vai se colocar no segundo turno da disputa pelo governo do Estado, na qual permanecem Eduardo Leite (PSDB) e o governador José Ivo Sartori (MDB). Na manhã desta terça-feira, a presidente estadual do PSL, Carmen Flores, informou que a tendência do partido no RS é de tomar posição em favor de um dos candidatos. Apesar de não adiantar arranjos, ela deu indicativos de que a legenda já tem um preferido. E não escondeu que seu voto, em particular, será para Sartori. 

No RS, o partido de Jair Bolsonaro elegeu quatro deputados para a Assembleia Legislativa, onde até então não tinha representação, sendo dois deles os mais votados da disputa; e outros três para a Câmara dos Deputados, onde o PSL gaúcho também não tinha assento. Além disso, a votação para o Senado obtida por Carmen chegou a amedrontar muitos políticos experientes, de diferentes legendas. Ante a força demonstrada pelo partido, o MDB se antecipou e, ainda na segunda-feira, com endosso de Sartori, recomendou o voto em Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial.

Carmen destacou que a reunião desta quarta não vai tratar só de apoios, mas também de como será feita a campanha presidencial no segundo turno em solo gaúcho, falou das adesões que a sigla vem recebendo e sobre como os movimentos para a montagem de um eventual governo de Bolsonaro podem resultar em mais uma cadeira para a representação gaúcha da sigla na Câmara dos Deputados.

Mas, mais do que isso, fez uma série de revelações a respeito do estremecimento das relações com o PP, o que acrescenta novos fatores sobre as articulações estaduais. O PP integra desde o primeiro turno a coalizão de Leite e estava também na coligação nacional de Geraldo Alckmin. Contudo, o então candidato ao Senado pelo PP gaúcho, e agora senador eleito, Luis Carlos Heinze, abriu voto para Bolsonaro em 12 de setembro e, na corrida estadual, passou a fazer dobradinha informal com Carmen (neste ano os eleitores escolhiam dois senadores). 

Os movimentos aconteceram após uma série de idas e vindas de Heinze que, inicialmente, havia se lançado ao governo pelo PP com apoio do PSL, do DEM e do Pros, prometendo apoio a Bolsonaro. Depois, em um momento bastante tenso da pré-campanha, quando Ana Amélia acertou sua participação na chapa de Alckmin e o PP gaúcho entrou na de Leite, Heinze abriu mão da candidatura ao governo e passou a compor a majoritária regional como um dos candidatos ao Senado (o outro era Mario Bernd, do PPS). Com as mudanças, PSL, DEM e Pros decidiram não ter candidato ao governo e se mantiveram aliados para as disputas nas proporcionais. 

Agora, os aliados do PP gaúcho pressionam Leite a se posicionar em favor de Bolsonaro. Um dos principais argumentos dos progressistas é o quanto a vinculação com o capitão candidato impulsionou a eleição de Heinze para o Senado em primeiro lugar, com 2.316.365. Na segunda-eira, um dia após o primeiro turno, o PP do RS oficializou apoio ao presidenciável do PSL. Mas, nas palavras de Carmen, o partido age por “oportunismo” e traiu o PSL no Estado, enquanto Heinze não teria cumprido com a palavra de ajudar financeiramente a sigla.

Confira algumas das declarações da dirigente:

- Como o PSL deve se posicionar na disputa estadual?
Carmen: A tendência, acredito, seja a de tomarmos posição a favor de um dos candidatos. 

-Vocês esperavam um apoio tão rápido do MDB?
Carmen: Aqui no RS o MDB é um partido que tem muita gente boa. Estão muitos vindo para o PSL. O apoio do MDB não era aberto, digamos assim, mas eles já eram Bolsonaro. A página do Sartori já era Sartonaro. O MDB votou em peso no Bolsonaro. Todo mundo. Quem não deve ter votado são aqueles velhinhos amigos do Meirelles (o candidato do MDB à presidência no primeiro turno, Henrique Meirelles). Mas não chamaram o Meirelles (risos). Nós já esperávamos, já sabíamos que ele (Sartori) ia fazer imediatamente. Eu abri meu voto para o Sartori no primeiro turno inclusive. Mas eu, Carmen, não o PSL.

- A senhora ficou surpresa com sua votação na disputa pelo Senado?
Carmen: Sempre achei que as pesquisas estavam totalmente erradas porque percorri o Rio Grande afora e não houve uma pessoa que fosse do Bolsonaro que não tivesse dito que ia votar em mim também, mas quem somos nós para duvidar. Eu só perdi a eleição porque o PP tinha milhões na conta e eu tinha R$ 200 mil. Quem me derrotou não foi nem o Beto (Albuquerque, do PSB), nem o PT e nem o Fogaça (José Fogaça, do MDB). Quem me derrotou foi o PP, Partido Progressista. É um partido oportunista. São uns oportunistas. Vão para o lado que está indo bem. O PP se coligou com o Centrão, os ladrões todos. Aí quando viram que iam perder tudo... O cidadão Heinze, pedimos que fosse nosso governador. Apoiamos ele, lançamos ele ao governo. Mas então, como a Ana Amélia tirou o dinheiro dele, voltou para a Ana Amélia, voltou para o Centrão. E quando o barco afundou, virou Bolsonaro de novo. Hoje está lá tirando foto com o Bolsonaro.

-Isso prejudicou sua candidatura?
Carmen: Nos últimos dias eles tocaram fakes (fake news), me chamando de ‘Tia Carmen’, me chamando de milhões de coisas, você não viu? Entraram na minha página. O PP não votou em mim, entende? Nós votamos no PP e o PP não votou em mim. Prometeram que iam me ajudar com a campanha do Bolsonaro, e não me pagaram um centavo. Ele (Heinze) vinha aqui, choramingava todos os dias na minha porta, pedindo para fazer dobradinha, que ia me ajudar a pagar a campanha do Bolsonaro. E quando chegou sexta-feira, me disse: 'Não tenho dinheiro para te pagar. Não tenho dinheiro para te ajudar'. Sem vergonha é o Heinze. Ele e a Ana Amélia Lemos. Ele me prometeu um valor irrisório, porque fez uma campanha de R$ 8 milhões (a prestação de contas parcial de Heinze aponta receitas de R$ 2,7 milhões. O teto de gastos para o Senado no RS é de R$ 3,5 milhões). Me prometeu R$ 120 mil e não pagou. Em 2014 este partido, o PP, já me deu um golpe. Agora me deu outro. Eu dei espaço para fazermos uma dobradinha. O Bolsonaro deu espaço, confiando que eles iam fazer uma dobradinha com o PSL, e eles puxaram o meu tapete, com medo que eu fosse fazer mais votos do que o Heinze. Eu sempre estive à frente dele, mesmo abaixo do Fogaça, do Paim, sempre à frente dele. Aí, de repente ele virou um deus, passou na frente de todo mundo. Eu estou recebendo todos os ‘fakes’ que eles fizeram. Montaram ‘fakes’ no interior do RS, inclusive em Rosário do Sul, minha cidade. Na minha própria cidade, ele falou mal de mim. Tenho todas as provas. Mas Deus está vendo.

-A senhora acredita que poderia ter ganho a eleição?
Carmen: Entrei nessa campanha para ajudar o Bolsonaro, e todo mundo sabe disso. Não tinha o menor problema em saber que perderia a eleição para o Fogaça e o Paim. O Paim para mim estava eleito, e o Fogaça era uma surpresa mas, inclusive, se eu pudesse escolher com quem fazer uma dobradinha, gostaria de ter feito com ele, que é um grande amigo, de quem gosto muito. Mas aí o cidadão esse veio, ofereceu mundos e fundos para nós, para me ajudar, sabia que eu não tinha dinheiro para a campanha. O partido me mandou R$ 200 mil do fundo. Então acho que eu com R$ 200 mil e ele com esses milhões, fiz muito voto. O Paim foi altamente respeitoso comigo, o Beto e o Fogaça também. São pessoas de alto nível, assim como fui alto nível com todos eles. E tinha o meu parceiro, o Heinze, que me deu o golpe de misericórdia. Do PP e da Ana Amélia Lemos, espero qualquer coisa". 

-O PP gaúcho e a senadora vão apoiar Bolsonaro no segundo turno. Vocês não estão alinhados?
Carmen: Ela abriu o voto para o Bolsonaro. Mas uma pessoa que fez o que fez contra o Bolsonaro, podia pelo menos ficar quieta. Se tem um voto que a gente não precisa, é o dela. Porque apoio, no RS, ela não tem nada. Eu me sinto 10 vezes mais forte do que ela no RS. Estou bem feliz com o resultado, fiz uma bancada, eles perderam bancada. Nós saímos do zero. Eles têm 40, 50 anos de partido, nós temos seis meses. Fiz um trabalho do qual me orgulho muito, fizemos uma grande mudança no RS. 

- Mas não há um alinhamento à direita?
Carmen: O PP nunca foi de direita, eles são muro. Não os considero de direita, nunca. Um partido que se alia com o PT em qualquer lugar por conveniência, que se alia ao Centrão, isso é direita? Mas o PP, a minha liderança no RS ele (Heinze) não vai tirar. Se elegeu nas minhas costas porque deixei que fosse meu parceiro. O Bolsonaro me deu a liberdade de eu deixar ou não, e eu deixei, eu levei ele, a cobra, meu inimigo. Se tivéssemos feito mesmo a dobradinha, teríamos primeiro e segundo lugar, teríamos inclusive passado do Paim, mas eles me detonaram e colocaram o Paim. Sou ingênua nisso, para mim existe gente boa, mas eles já tinham me aprontado em 2014, então eu também digo que foi bem feito para mim. E o Onyx (o deputado federal reeleito Onyx Lorenzoni, presidente estadual do DEM e coordenador da campanha de Bolsonaro no RS) tinha me dito: ‘O Heinze é diferente, ele é um cara do bem, nós odiamos a Ana Amélia, mas ele é do bem.’ Está aí: do bem para ele mesmo.

O PSL está recebendo muitas adesões?
Carmen: Recebo em torno de 200, 300 ligações, todo mundo querendo montar o partido no Estado, todo mundo quer ser candidato a prefeito pelo PSL. Eu já disse: qualquer pessoa menos gente do PP e do PT, da esquerda né? A metade do Rio Grande já quer entrar no PSL. É uma febre. De todos os partidos, todos.

Esse estremecimento com o PP pode prejudicar os anseios de progressistas para uma possível indicação de Heinze para o ministério da Agricultura caso Bolsonaro venha a ser eleito?
Carmen: Eu acho que o ministro da Agricultura se chama Nabhan (o presidente da União Democrática Ruralista, Luiz Antônio Nabhan Garcia), mas de ministério eu não sei. 

E o seu futuro político?
Carmen: O Bolsonaro já me chamou para Brasília, mas ontem agradeci, e vou permanecer no Estado. Porque tenho duas pessoas que são a minha vida: minha filha e minha neta. Sairia pelo Senado, porque aí ficaria lá três dias por semana. Agora, se tiver alguma coisa aqui no Estado que me agrade, que tenha a ver comigo, disse para ele, vou pensar. Provavelmente o coronel Zucco (o tenente coronel Zucco, mais votado do Estado para a Assembleia Legislativa) vá para um cargo diferente, não só pela votação, mas porque é afilhado do general Mourão (o general Hamilton Mourão, vice na chapa de Bolsonaro). Em vez de três, devemos ficar com quatro deputados federais também, porque o DEM fez um deputado só, o Onyx, ele deve ser ministro, e o Marcelo Brum vai para a vaga dele (integrante do PSL, Brum é o primeiro suplente da coligação para a Câmara). Ele (Bolsonaro) está encantado com a votação aqui no RS.

Categoria:Eleições 2018

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