Por: Dani Vazatta
Tem experiências que a gente escolhe viver. E tem experiências que parecem escolher a gente. Este foi o meu ano de atravessar a avenida pela primeira vez e viver tudo isso que só uma festa popular como o carnaval pode nos ensinar.
A martelada final
A decisão já vinha sendo construída dentro de mim, mas a martelada final aconteceu na praça da prefeitura, no dia da apresentação dos sambas-enredo quando a CAMAS apresentou: “Na viagem à terra do chão rachado, desembarca um Malandro Arretado”. Foi ali, no momento do arrepio. Não era só um samba. Era narrativa, era Nordeste, era resistência, era poesia popular. Aquele verso me atravessou. Ali eu soube que precisava fazer parte daquela história. Eu já estava ali, só faltava a avenida.
O carnaval sempre esteve perto de mim
Durante anos, customizei abadás. Fiz tiaras para integrantes desfilarem na Muamba de Arroio do Sal. Transformei tecidos simples em identidade e brilho. Mas customizar o meu próprio abadá foi diferente. Criar acessórios com referências nordestinas, mergulhar no enredo, pensar nos detalhes… foi unir minha arte ao samba. Não fui sozinha, o Sam participou de todo o processo. Decidimos juntos desfilar pelo Clube dos Amigos Malandros de Arroio do Sal – CAMAS. E desfilamos na mesma ala. Parceria na vida, no trabalho e agora na avenida.
A ala Geraldo Vandré — quando a música encontra a avenida
E então veio algo que me tocou profundamente: minha ala era a ala Geraldo Vandré. Eu sou música. A música é o que me move, o que me constrói, o que me define. Subo em palcos acreditando na arte como ferramenta de transformação. Sempre enxerguei a canção como algo que vai além da melodia. Ea é discurso, é posicionamento, é identidade. E Vandré representa exatamente isso. Representa resistência. Representa coragem. Representa a força da música brasileira como manifestação cultural e política. Desfilar representando um artista que carrega essa simbologia, dentro de um enredo que falava de chão rachado, de Nordeste, de luta… não foi apenas coincidência. Foi alinhamento. Foi como se a minha história encontrasse a história do samba naquele momento. Enquanto eu cantava o samba-enredo na avenida, eu sentia que não estava apenas desfilando. Eu estava honrando a música. Honrando todos os compositores, todos os artistas que transformam dor em poesia. Para mim, aquilo teve um peso simbólico muito grande. Foi emocionante.
Três vezes na avenida
Foram três momentos que marcaram minha estreia. A Muamba: No ensaio técnico, a nossa Muamba, já senti a força da escola e ali tive um orgulho enorme: ajudei a levar o bandeirão da escola pela avenida. Carregar o bandeirão é carregar história, é assumir responsabilidade, é representar cada integrante. Ali eu entendi que já fazia parte. O desfile oficial: No desfile oficial, quando a bateria começou, eu senti no peito. O surdo marcando, a escola inteira entrando, o público vibrando… é impossível explicar completamente. Eu entrei nervosa. Saí transformada. O desfile das campeãs: E então veio o resultado. A CAMAS conquistou o penta campeonato. Ver aquela comunidade vibrando, comemorando, se abraçando… foi uma das cenas mais bonitas que eu já vivi. E eu estreei campeã. No desfile das campeãs, o sentimento era outro. Era orgulho. Era pertencimento. Era consciência do que estávamos vivendo.
Gratidão
Sou grata à CAMAS por acolher. Sou grata por ter vivido isso ao lado do Sam, na mesma ala. Sou grata por ter ajudado a carregar o bandeirão. Sou grata por ter representado a música na ala Geraldo Vandré. Eu entrei na avenida como estreante. Saí campeã. Mas mais do que o título, eu levo algo maior: a certeza de que quando a arte encontra o coletivo, ela ganha uma potência indescritível. A avenida me atravessou. E agora ela faz parte da minha história. Viva o Carnaval, Viva a Cultura Popular.